CICLOS


A criação é um movimento cíclico. Tudo sai da pura existência, nada aparente se desenvolve, é realizado, retirado e derrete novamente. Esse movimento pulsante ocorre como o fenômeno ‘tempo’ no campo do espaço. Temos a visão de períodos de tempo como sequências lineares, mas elas têm a estrutura dos fios alternados que são baseados na lei da pulsação. O espaço pulsa e o tempo aparece como a duração de uma série de eventos que se sucedem em uma ordem cíclica. Há uma constante transformação do físico sutil para o denso e, ao mesmo tempo, do físico denso para o sutil. Podemos visualizá-lo como um fluxo circular de energia chamado roda da criação. A roda gira em círculos e, portanto, há um processo de descer e subir. Na sabedoria oriental, Vishnu, o Senhor da Impregnação, é representado com um dedo indicador da mão direita estendida sobre a qual ele carrega uma roda. Simboliza a roda do tempo e Vishnu rege os ciclos do tempo.

O tempo cíclico, a Humanidade e a Natureza.

Assim como a serpente que morde a própria cauda, essa ideia do tempo como uma infindável sucessão de ciclos, nos convida para relativizar a condição humana e o nosso papel na criação. Diferentemente daquilo que poderíamos concluir olhando para o tempo linear, em que poderíamos colocar aqui no presente, e de maneira bastante confortável, a presença humana na criação, a visão do tempo cíclico nos convida a perceber a transitoriedade e fragilidade dessa presença. Conseqüentemente, nos traz de um lado uma sensação de maravilhamento perante a grandeza da criação e, de outro, uma necessária e saudável dose de humildade.

Acredito que uma parte dos problemas que a Humanidade enfrenta atualmente deva-se justamente à falta de humildade, àquela atitude de excesso que os gregos chamavam hybris. Esse termo significa em grego ”aquilo que passa da medida justa”. Presunção, arrogância e insolência em relação à natureza e às formas de vida não-humanas são manifestações de hybris. Isso, temperado pela ideia de que o homem ocuparia um lugar especial na criação, cujo corolário é que tudo na natureza existe para o nosso benefício e bel-prazer, nos levaram à situação crítica que estamos vivendo agora em relação ao meio-ambiente.

Em sua obra Estudo da História, o inesquecível historiador Arnold Toynbee enxerga, nessa atitude de arrogância extrema, uma possível causa do colapso das civilizações. O oposto desse excesso de hybris é sofrósina, que é prudência, parcimônia e bom-senso. Se essas virtudes fossem aplicadas, se tomássemos consciência da insignificância do bicho humano diante da grandeza do tempo e da natureza, deixaríamos de ver a nós mesmos como a cereja no bolo da criação.

Em sânscrito, tempo se diz kala. Mas, essa palavra também significa morte, fim, destruição. Esses termos, da mesma maneira, nos remetem à humildade e nos fazem repensar que, tal vez, o nosso papel na ordem universal não seja assim tão central e que, quem sabe, deveríamos enxergar com olhos mais respeitosos e compassivos as formas de vida não humanas e as demais manifestações da natureza. Percebendo a dimensão abismal dos ciclos cósmicos, relativizamos aquilo que entendemos como a história linear, e nos tornamos assim capazes de viver o presente da melhor maneira. Namaste!

Muita Luz,

Edgar Martins

Fonte: https://www.instagram.com/p/B7tTEGsICgg/?utm_source=ig_web_copy_link / https://www.yoga.pro.br/o-tempo-na-visao-hindu/

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